SOBRE O VERBO CANTAROLAR

Disseram: “lock down”, e ela abriu todas as janelas. Vera sabia que algo assim estava para acontecer, mas a notícia veio cedo demais. Essa não foi a primeira conversa que ela teve com seu filho de 7 anos sobre as consequências das ações das pessoas, nossas ações. E eles concordaram: “slow down“, desaceleremos.

Em algum momento durante os primeiros quatorze dias, eles estavam reunindo seus pensamentos, repletos de sentimentos que não podiam tocar. Estavam em modo funcional. Vera lembrou das primeiras duas semanas com um recém-nascido. Entre choros, mãe e filho tentavam sincronizar, mas a pequena criatura dormia pouco, berrava um monte, ainda não se moldava nas mãos que tentavam segurá-lo, e nem os ouvidos dela estavam afinados aos chamados dele. Num desalento aberto ao buscar uma solução, Vera se ancorou numa abordagem-relógio, seguindo o ritmo de dormir, mamar, brincar e banhar, dormir, mamar, brincar… e assim por diante. Foi desta forma que eles deram conta, e de certa forma agora dão novamente, acrescentando a vaga percepção da turbulência global ao nosso redor, remansamente borbulhando, antecipando explosões. Não foi por coincidência que ali entre suas paredes, havia uma crescente preocupação com noções de profundidades geológicas, perguntas frequentes sobre lava e vulcões, erupções. O funcionamento interno de Gaia, Pachamama, Amalur, Sarasvati, Terra.

Eles baixaram a cabeça, retomando aquela prática vital de desenhar, pintar, observar.
Conversas farfalham quando imersos nessas ações, que podem ser momentos silenciosos, embora Tom esteja sempre de alguma forma cantarolando – humming.

Foi quando surgiu o desenho que parecia um hexágono, dividindo igualmente segmentos cortados pelas bordas de uma moldura retangular. Tom coloria cada parte vigorosamente enquanto ela permanecia absorvida em sua própria criação, provavelmente desenho, ou escrita, ou ambos. Ele levantou-se subitamente, do seu debruçar sobre o papelão, tendo se esforçado nas cores brilhantes sobre uma superfície gengibre. Tom desvendou o que parecia uma roda giratória e Vera percebeu que tinha acabado de ser presenteada com nove elementos cuidadosamente escritos com uma caneta bic tão sinceramente quanto um adulto manifestaria sua familiar assinatura. Enunciava: preocupado, medo, tedio, sentido, feliz, chateado, calmo, raiva, emoções.

O que aflorava veio de algum lugar. Talvez da textura do cartão reciclado, ou dos pigmentos prensados dos lápis-de-cor, da água que ele bebia, do ar que ele respirava. Ela suspeitava que fluía do que ele  cantarolava  – hummed, enquanto ele desenhava.

Vera gosta de coletar objetos encontrados, que ela dispõe ao redor de sua sala. Um hábito de conexão estética com elementos inanimados, uma tática para evitar a solidão. Quando o menino correu para seu quarto com a habitual inquietação com a brincadeira seguinte, Vera notou um grupo de conchas que lhe foi dado por uma colega, que estava ao lado da prolífica espada de São Jorge. Um presente recolhido a mão no Vietnã. Os cones em forma de espiral cobriam uma praia inteira naquele país distante, que a amiga não havia retornado desde que deixara seu país de nascimento quando criança. Agora a memória e o gesto tinham um lugar em sua casa. Vera apalpou o que haviam sido moluscos protegendo-se dos perigos da vida marinha e os colocou no centro da estrela multidimensional de Tom. Sem se dar conta da sua intervenção, ou mesmo da conversa que havia se instalado silenciosamente. E então deixou o tabuleiro na estante ao lado da porta quando ela mesma se retirou da sala.

Eles saíram para o passeio diário de bicicleta, provavelmente ficou tarde, emoções rolaram como costuma acontecer. Foi quando ela notou que as conchas tinham sido mexidas, espalhadas de forma diferente. Aparecia “entediado e chateado” aquela primeira vez, e desde então as conchas continuam dançando. Tornando visível aquilo que desvirtua, o íntimo e sutil, o impulsivo, o alarmante. Sentimentos comprometidos por um tempo recordado, percebido, movido. Uma visualização do verbo cantarolar. A mão de uma amiga ausente que se junta em comunhão. Um canto ouvido por uma janela aberta.

Worried (woryd) – preocupado
Scared (Skaird) – medo
Bored (bord) –  tedio
Hurt (hert) – sentido
Happy – feliz
Upset – chateado
Calm (carm) – calmo
Anger – raiva
Emotions (omosions) – emoçõe
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